MARTY SUPREME – O MITO DA AMBIÇÃO E O PESADELO AMERICANO

  • Marty é alguém que erra o tempo todo, acerta por acidente, escapa por milímetros. E cada pequena vitória vem seguida de uma queda ainda maior. Foto: Divulgação

Por Vinícius Bastos

Marty Supreme é um filme suado, explosivo, cruelmente engraçado, que avança em ritmo de colapso nervoso permanente. É cinema que vibra no limite da combustão. Cada cena parece prestes a desandar, e muitas delas efetivamente desandam, mas sempre de um jeito mais caótico do que você imaginava.

Sua cartada inicial é que a história não começa como um filme dos Safdie. E é exatamente aí que ele te pega. Por cerca de meia hora, tudo indica que estamos diante de um drama esportivo relativamente convencional: o jovem prodígio, o talento bruto, a promessa de ascensão. A câmera até se comporta.

O ritmo parece controlado. Mas então, quase sem aviso, o filme implode essa ilusão e se revela como a comédia de erros mais delirante, sufocante e moralmente corrosiva que os Safdie já fizeram: uma mistura enlouquecida do ataque de ansiedade de “Bom Comportamento” com a espiral autodestrutiva de “Joias Brutas”, só que ainda mais agressiva, mais engraçada e mais desesperada.

É de sair do cinema completamente atordoado. No centro desse furacão está Timothée Chalamet, entregando algo que não soa exagero chamar de performance de uma vida. Não porque seja espalhafatosa, embora às vezes seja, mas porque é absurdamente segura. Chalamet sustenta Marty com uma confiança tão inabalável que dá a impressão de que esse personagem existe dentro dele há anos.

É uma atuação calibrada no detalhe, sem vacilos, sem hesitação, movida por uma energia quase infinita. Marty nunca para. E Chalamet também não. O mais fascinante é que Marty Supreme é, em muitos níveis, um filme sobre atuação. Sobre performance como forma de sobrevivência. Sobre mentiras que soam mais verdadeiras do que a verdade.

Marty se apresenta ao mundo como um mito em construção e deixa isso explícito logo de cara, quando se define como “performer” em uma conversa casual que já carrega o DNA temático do filme inteiro. Ele mitologiza a própria vida porque não sabe existir de outro modo. Tudo é encenação, tudo é “pitch”, tudo é aposta.

A realidade só interessa na medida em que pode ser dobrada à força da sua fantasia. Há também um subtexto poderoso e doloroso sobre memória e permanência. Marty é um jovem judeu vivendo à sombra de uma violência histórica que ecoa silenciosamente em sua obsessão por legado.

O gesto quase absurdo de arrancar um fragmento das pirâmides para levar à mãe não é apenas delírio; é uma tentativa desesperada de afirmar que seu povo, sua história, sua existência não podem ser apagados. Marty quer ser grande não só por vaidade, mas porque precisa acreditar que o mundo vai lembrar dele.

Que seu nome vai sobreviver. Que seu mito vai resistir ao esquecimento. E é aqui que o filme se torna genuinamente perturbador. Marty Supreme não é uma história de redenção. Não é sobre aprendizado. Não é sobre crescimento. É, como os melhores filmes do universo Safdie, a história de um homem incapaz de mudar.

Um sujeito em guerra constante consigo mesmo, movido por uma combinação tóxica de narcisismo, insegurança patológica e fome por validação. Marty não amadurece. Ele consome. Ele passa pelas pessoas como um incêndio passa por uma casa. E o filme não suaviza isso. Pelo contrário: deixa muito claro que toda vida que Marty toca acaba em ruínas.

E ainda assim, você não consegue tirar os olhos dele. Porque o cinema permite isso. Um personagem pode ser profundamente detestável e ainda assim hipnotizante. Marty é alguém que erra o tempo todo, acerta por acidente, escapa por milímetros. E cada pequena vitória vem seguida de uma queda ainda maior.

Seus sucessos diminuem. Seus fracassos crescem. O sonho permanece colossal. A realidade, cada vez mais estreita. Tudo isso se encaixa perfeitamente na persona de Chalamet como astro. Diferente de outros atores que tentam esconder sua vocação para o espetáculo, ele abraça o fato de ser um vendedor de ideias, de personagens, de si mesmo.

Seus papéis recentes parecem menos “interpretações” e mais apostas. Produtos impulsionados por uma fé quase messiânica em si próprio. Em Marty Supreme, o filme usa isso contra ele e a favor da obra. É um duelo entre ambição e sentido, entre vender o coração e perguntar por que alguém faria isso.

Visualmente, o filme é elétrico. A fotografia e o design de produção transformam 1952 em um delírio anacrônico, embalado por uma trilha sonora oitentista que não deveria funcionar, mas funciona perfeitamente, como se estivéssemos vendo um clássico dos anos 80 que escapou no tempo.

Há ecos de “Bons Companheiros” e “O Gângster”: mitos americanos construídos sobre o sacrifício de tudo que é humano. No fim, Marty Supreme é um mito moderno sobre o pacto faustiano da grandeza. Um filme sobre capitalismo como ritual de humilhação, sobre ambição como vício, sobre malandragem como condenação.

Um retrato cruel, engraçado e desesperador de alguém que quer ser tudo, mas acaba sendo apenas um vazio em movimento. Não é um filme confortável. Não é um filme edificante. Mas é avassalador.